Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus, e quando o viram, suplicaram-lhe que saísse do território deles.
1. Introdução
Há cenas no Evangelho que surpreendem pela grandiosidade — multidões curadas, tempestades acalmadas, mortos ressuscitados. E há cenas que surpreendem por um motivo completamente diferente: pela pequenez da resposta humana diante do extraordinário. Mateus 8:34 pertence a essa segunda categoria.
Toda uma cidade sai ao encontro de Jesus. É um movimento coletivo, unânime, aparentemente solene. Em qualquer outro contexto evangélico, uma cidade inteira vindo ao encontro de Jesus seria o prelúdio de uma grande acolhida, de curas em massa, de um ensinamento transformador. Aqui, é o oposto. A cidade vai até Jesus para pedir que ele vá embora.
O contraste com o versículo anterior é deliberado. Os guardadores de porcos fugiram e contaram. A cidade ouviu e foi. Mas foi para expulsar, não para receber. E o pedido que fazem não é de um inimigo declarado, nem de uma autoridade religiosa hostil — é de pessoas comuns que simplesmente não querem aquela presença ali.
A palavra que Mateus usa para descrever o pedido — "suplicaram" — é surpreendente. Não é uma ordem, não é uma ameaça. É uma súplica. A cidade pede, com urgência e insistência, que Jesus saia. E Jesus, sem discussão, sem argumentação, sem milagre adicional para convencê-los, vai embora.
Esse desfecho é um dos mais perturbadores de todo o Evangelho. O Filho de Deus, diante de uma rejeição coletiva expressa com urgência, respeita a vontade da comunidade e parte. Não porque foi derrotado — mas porque não impõe sua presença onde ela não é desejada. Mateus registra isso sem comentário, sem julgamento explícito, deixando o peso do episódio repousar sobre o leitor.
2. Contexto Histórico e Cultural
A Decápolis e a identidade gentílica da cidade A cidade mencionada no versículo era provavelmente Gadara ou Gerasa, parte da Decápolis — a confederação de dez cidades de forte influência greco-romana. Eram centros urbanos sofisticados, com fóruns públicos, teatros, templos pagãos e uma economia integrada ao mundo helenístico. Para seus habitantes, a identidade cultural estava intimamente ligada às instituições, ao comércio e à ordem estabelecida. A chegada de um rabino judeu que expulsava demônios e destruía manadas de porcos não se encaixava em nenhuma categoria conhecida — e o que não se encaixa costuma gerar medo.
O impacto econômico como fator político A destruição de uma manada de aproximadamente dois mil porcos representava uma perda econômica considerável. No mundo antigo, animais de criação eram ativos de valor, e sua perda repentina tinha consequências diretas para proprietários, trabalhadores e para a circulação de riqueza na comunidade. É provável que os proprietários da manada fossem pessoas de influência na cidade — e que sua reação à perda tenha contribuído decisivamente para a resposta coletiva que saiu ao encontro de Jesus. O que parece uma decisão espiritual pode ter raízes muito práticas e econômicas.
A dinâmica da rejeição coletiva no mundo antigo No contexto das cidades greco-romanas, a expulsão de estrangeiros ou de figuras consideradas perturbadoras da ordem pública era um mecanismo social conhecido. As autoridades locais tinham poder para solicitar que visitantes indesejados deixassem o território, e essa prática era culturalmente aceita. O pedido da cidade a Jesus não era, portanto, um gesto isolado de hostilidade individual — era o exercício de uma prerrogativa comunitária reconhecida. A cidade estava, dentro de seus próprios parâmetros culturais, fazendo exatamente o que se fazia com qualquer elemento que ameaçasse a estabilidade local.
A rejeição do Messias fora de Israel Mateus constrói seu Evangelho com atenção constante à questão de quem reconhece Jesus e quem o rejeita. No capítulo 8, logo antes desse episódio, um centurião romano — gentio — demonstra uma fé que Jesus descreve como superior à de qualquer israelita que encontrou. Agora, outra comunidade gentílica o expulsa. A variedade de respostas dentro do mesmo contexto cultural mostra que a questão não é étnica nem geográfica — é do coração. A mesma realidade produz fé num centurião e rejeição numa cidade inteira.
A saída voluntária de Jesus O detalhe de que Jesus parte sem resistência tem relevância histórica e teológica. No mundo antigo, um líder religioso ou um filósofo itinerante que fosse expulso de uma cidade poderia interpretar isso como perseguição, desonra ou derrota. Jesus não reage dessa forma. Sua saída é voluntária e silenciosa. Isso corresponde ao padrão que ele mesmo ensinaria mais tarde aos discípulos: quando uma cidade não os receber, sacudam o pó dos pés e sigam em frente (Mateus 10:14). A rejeição não paralisa o ministério — apenas redireciona o caminho.
3. Análise Teológica do Versículo
"Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus" Essa frase indica uma resposta coletiva da cidade, sugerindo que o evento envolvendo Jesus havia causado um impacto profundo na comunidade. A cidade em questão era provavelmente Gadara ou Gerasa, parte da Decápolis, grupo de dez cidades com forte influência greco-romana. A reação dos habitantes pode ser entendida como reflexo das tensões culturais e religiosas entre as populações judaica e gentílica. A decisão de sair em massa ao encontro de Jesus sugere uma mistura de curiosidade, medo e talvez hostilidade, pois acabavam de saber da cura dramática dos dois endemoninhados e da perda subsequente da manada de porcos. Esse evento evidencia o poder e a autoridade de Jesus sobre as forças espirituais, tema recorrente em todo o Evangelho.
"E quando o viram" O ato de ver Jesus implica um encontro direto com sua presença, que frequentemente provocava reações intensas em quem testemunhava seus milagres. Nas narrativas bíblicas, ver está frequentemente associado à compreensão ou à revelação — mas aqui esse encontro visual conduz à rejeição. Esse momento é decisivo, pois contrasta com outros episódios em que ver Jesus levou à fé e à adoração. A reação dos habitantes pode ser comparada a outros relatos bíblicos em que pessoas ou grupos não reconheceram a autoridade divina e a missão de Jesus.
"Suplicaram-lhe que saísse do território deles" O pedido para que Jesus fosse embora evidencia o medo e a incompreensão diante de seu poder. A perda dos porcos — um recurso econômico significativo — provavelmente contribuiu para o temor e o desejo de que ele partisse. Essa reação pode ser interpretada como uma recusa da transformação que Jesus traz, priorizando a perda material em detrimento do ganho espiritual. Reflete também um tema mais amplo nos Evangelhos: Jesus frequentemente é rejeitado por aqueles que não compreendem sua missão. Esse episódio antecipa a rejeição que Jesus enfrentaria de seu próprio povo, como profetizado em Isaías 53:3, onde o Messias é descrito como "desprezado e rejeitado pelos homens". O pedido da cidade contrasta com a acolhida que Jesus recebe em outras regiões, ilustrando as respostas variadas ao seu ministério.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Jesus A figura central da passagem, cuja presença e cujas ações provocaram uma reação significativa nos habitantes da cidade.
2. Toda a cidade Representa a resposta coletiva dos habitantes da região afetados pelas obras miraculosas de Jesus.
3. A região dos gadarenos A área geográfica onde o evento acontece, conhecida por sua população gentílica e pela presença de criadores de porcos.
4. Os endemoninhados Embora não mencionados diretamente neste versículo, o contexto envolve a cura dos dois homens possuídos, que desencadeou a reação dos habitantes.
5. Os porcos A manada que se atirou ao mar e pereceu, evento que motivou o pedido da cidade para que Jesus deixasse a região.
5. Pontos de Ensino
O custo do discipulado Seguir Jesus pode levar à rejeição social ou ao desconforto, como demonstra a reação dos habitantes da cidade. O Evangelho não promete aceitação universal — promete presença fiel no caminho.
O medo da mudança O pedido da cidade para que Jesus fosse embora evidencia o medo do desconhecido e a preferência pelo estado atual das coisas, mesmo quando isso significa rejeitar a intervenção divina.
Perda material versus ganho espiritual A perda dos porcos representa um custo material que os habitantes não estavam dispostos a suportar em troca da cura espiritual dos endemoninhados. Essa tensão é permanente e contemporânea.
Reconhecer a autoridade de Jesus Apesar de testemunharem um milagre, os habitantes não reconheceram a autoridade divina de Jesus — um alerta para que o crente permaneça aberto às obras de Deus, mesmo quando elas perturbam a ordem estabelecida.
O desafio da evangelização Esta passagem sublinha a dificuldade de compartilhar o Evangelho em ambientes resistentes à mudança ou onde interesses econômicos estão em jogo.
6. Aspectos Filosóficos
A rejeição do bem como escolha livre Mateus 8:34 apresenta uma das cenas mais filosoficamente densas de todo o Evangelho: uma comunidade que, diante do bem absoluto, escolhe a ausência. Não por ignorância — eles sabiam o que havia acontecido. Não por coerção — ninguém os forçou. A rejeição foi livre, coletiva e deliberada. Isso levanta uma questão fundamental sobre a natureza da liberdade humana: o que acontece quando a liberdade é usada para recusar aquilo que mais poderia transformar? A cena dos gadarenos é um retrato real dessa possibilidade — e ela é desconcertante precisamente porque não é excepcional. É uma escolha que o ser humano repete em contextos variados, sempre que o custo da presença do sagrado parece superior ao custo de sua ausência.
O conforto do conhecido versus a perturbação do verdadeiro A decisão da cidade tem uma lógica interna compreensível: havia uma ordem antes de Jesus chegar, e sua presença havia perturbado essa ordem de forma irreversível. Os porcos estavam mortos, os trabalhadores estavam em pânico, a rotina havia sido quebrada. Do ponto de vista dos habitantes, pedir que Jesus fosse embora era uma tentativa de restaurar o equilíbrio perdido. Mas esse raciocínio revela um problema filosófico recorrente: a preferência pelo conforto do familiar em detrimento da verdade do novo. O ser humano tende a valorizar a estabilidade de um estado conhecido — mesmo que esse estado seja inferior — acima da incerteza de uma transformação real. A cidade conhecia sua desordem antiga. A presença de Jesus era uma desordem nova — e o novo assusta mais do que o familiar, mesmo quando o familiar é ruim.
A súplica como forma de rejeição Há uma ironia linguística e filosófica no verbo que Mateus usa: os habitantes "suplicaram" que Jesus fosse embora. A mesma intensidade emocional que poderia caracterizar uma oração de fé é aqui direcionada para uma petição de ausência. Isso revela que a intensidade do sentimento não determina a direção da vontade. É possível suplicar no sentido errado — com toda a sinceridade e urgência — e ainda assim mover-se para longe do que seria transformador. O fervente não é necessariamente o correto.
Jesus e o respeito à liberdade humana A resposta de Jesus ao pedido é, filosoficamente, uma das mais reveladoras de seu caráter: ele vai embora. Não argumenta, não faz mais milagres para convencer, não invoca sua autoridade para permanecer. Essa postura é coerente com uma concepção de Deus que não coage — que se oferece, mas não se impõe. A liberdade humana, na perspectiva do Evangelho, é levada tão a sério que inclui o direito de rejeitar o próprio Deus. Isso não é fraqueza divina — é o maior respeito possível pela dignidade da pessoa humana. Um Deus que permanecesse à força não seria diferente, em essência, dos demônios que habitavam os dois homens contra a vontade deles.
7. Aplicações Práticas
Identificar o que estamos protegendo quando resistimos a Deus A cidade protegia seus interesses econômicos e sua zona de conforto. Quando surge resistência interna diante de algo que Deus parece estar fazendo — uma convicção, uma mudança necessária, uma renúncia — vale perguntar: o que estou protegendo? Com frequência, a resposta revela não uma objeção legítima, mas um apego que precisa ser examinado.
Não deixar que perdas materiais determinem decisões espirituais Os habitantes calcularam o custo de ter Jesus ali e concluíram que era alto demais. A perda dos porcos foi real e concreta. A cura dos dois homens também foi real — mas abstrata para quem não a havia vivido. Na vida prática, isso se repete: as perdas materiais são imediatas e visíveis, enquanto os ganhos espirituais são mais difíceis de mensurar. A aplicação é desenvolver a capacidade de enxergar o valor daquilo que não aparece no balanço financeiro.
Reconhecer quando o medo está governando as decisões coletivas A rejeição de Jesus pela cidade foi uma decisão coletiva. Grupos — famílias, igrejas, equipes de trabalho, comunidades — também tomam decisões coletivas movidas pelo medo. Quando uma comunidade rejeita algo novo por medo de instabilidade, sem avaliar o mérito daquilo que está rejeitando, repete o padrão dos gadarenos. A aplicação é cultivar ambientes onde o medo não seja o árbitro das escolhas coletivas.
Aceitar que nem todos vão querer o que você tem a oferecer Jesus partiu sem insistir. Para quem compartilha a fé — seja em conversas pessoais, na família ou em contextos de evangelização — isso é uma lição importante. Há momentos em que a melhor resposta a uma rejeição é respeitar a decisão do outro e seguir em frente. Insistência forçada não produz fé genuína. O Evangelho é um convite, não uma imposição.
Examinar as próprias rejeições silenciosas A rejeição dos gadarenos foi explícita e pública. Mas é possível rejeitar a presença de Jesus de formas muito mais silenciosas: ignorando uma convicção persistente, adiando indefinidamente uma decisão de fé, preferindo a comodidade de uma religiosidade superficial à perturbação de uma transformação real. A aplicação mais pessoal deste versículo não é julgar a cidade — é perguntar em que áreas da própria vida o pedido implícito tem sido "saia daqui, Jesus".
8. Perguntas e Respostas Reflexivas sobre o Versículo
1. O que a reação dos habitantes da cidade revela sobre a natureza humana quando confrontada com o divino?
A reação da cidade revela uma tensão estrutural da experiência humana: o divino é ao mesmo tempo atraente e ameaçador. Os habitantes não ignoraram Jesus — saíram todos para encontrá-lo. Havia ali curiosidade, talvez fascínio. Mas quando o encontro se tornou real e seus custos ficaram visíveis, o instinto de autopreservação prevaleceu. Isso é profundamente humano. O sagrado perturba porque não se adapta às nossas expectativas — ele reorganiza, exige, transforma. E a transformação, mesmo quando é para melhor, implica deixar para trás algo que era familiar. A reação dos gadarenos não é excepcional: é o retrato de qualquer pessoa ou comunidade que, ao se deparar com uma presença que exige mudança real, opta pelo conforto do que já conhece.
2. Como é possível aplicar a lição de priorizar o ganho espiritual em vez da perda material em nossas próprias vidas?
A aplicação começa pelo reconhecimento de que perdas materiais são imediatas e concretas, enquanto ganhos espirituais frequentemente são graduais e invisíveis a olho nu. A cidade viu os porcos mortos — não podia ver o que os dois homens libertados significavam em termos de dignidade restaurada, de famílias que poderiam ser reunidas, de vidas que poderiam recomeçar. Priorizar o ganho espiritual, na prática, exige desenvolver a capacidade de enxergar além do imediato. Isso acontece por meio de uma perspectiva cultivada — pela Palavra, pela oração, pela comunidade de fé — que treina o olhar a perceber valor onde a lógica econômica não o enxerga.
3. De que formas o medo da mudança pode nos impedir de abraçar plenamente a obra de Jesus em nossas vidas?
O medo da mudança opera de formas sutis. Raramente alguém diz abertamente "não quero que Deus mude isso em mim". O que acontece, com muito mais frequência, é uma série de adiamentos, racionalizações e resistências que, somados, produzem o mesmo resultado que a súplica dos gadarenos: a presença transformadora de Jesus é mantida à distância. O medo se disfarça de prudência, de ceticismo razoável, de respeito pelo processo. Identificar o medo pelo nome — sem julgamento, mas com honestidade — é o primeiro passo para deixar de deixá-lo governar.
4. Como é possível reconhecer e responder melhor à autoridade de Jesus em nossas decisões e ações diárias?
Reconhecer a autoridade de Jesus nas decisões cotidianas começa por perguntar, diante de cada escolha relevante, se a direção tomada é coerente com o que o Evangelho ensina sobre o valor das pessoas, a honestidade, a generosidade e a confiança em Deus. Não se trata de uma fórmula religiosa, mas de um hábito de consulta — de trazer as decisões para um referencial que vai além do cálculo de vantagem pessoal. Os gadarenos decidiram com base no que perderam. Responder à autoridade de Jesus significa aprender a decidir com base em um horizonte mais largo.
5. Que estratégias podem ser adotadas para compartilhar o Evangelho de forma eficaz em ambientes resistentes ou hostis à sua mensagem?
A postura de Jesus neste versículo já oferece uma estratégia: ele não forçou sua permanência. O Evangelho que se impõe pela pressão ou pela manipulação não é o Evangelho de Jesus. Em ambientes resistentes, a abordagem mais eficaz costuma ser a do testemunho concreto — vidas transformadas que não precisam de argumento porque são, elas mesmas, a evidência. Além disso, é importante distinguir resistência ao Evangelho de resistência a formas culturais específicas de apresentá-lo. Muitas vezes, o que as pessoas rejeitam não é Jesus — é uma embalagem que não faz sentido para elas. Adaptar a forma sem comprometer o conteúdo é uma habilidade que o próprio ministério de Jesus demonstra ao longo dos Evangelhos.
9. Conexão com Outros Textos
Marcos 5:1-20 e Lucas 8:26-39 Esses relatos paralelos fornecem detalhes adicionais sobre a cura dos endemoninhados e a reação dos habitantes da cidade.
"Então começaram a rogar-lhe que saísse dos seus territórios." (Marcos 5:17)
"Toda a população da região dos gerasenos pediu a Jesus que se retirasse deles, pois estavam tomados de grande temor. Então Jesus entrou no barco e voltou." (Lucas 8:37)
Lucas acrescenta um detalhe fundamental: o grande temor que tomou conta da população. A saída de Jesus não foi uma derrota — foi uma resposta compassiva a uma comunidade que, paralisada pelo medo, não tinha condições de receber o que ele tinha a oferecer.
João 1:10-11 Este texto reflete o tema da rejeição de Jesus por aqueles a quem ele veio salvar, de forma análoga ao pedido dos habitantes para que ele partisse.
"Ele estava no mundo, e o mundo foi criado por meio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam." (João 1:10-11)
A cena dos gadarenos é uma ilustração concreta do que João enuncia em termos teológicos: a rejeição de Jesus não foi um acidente histórico — foi um padrão que se repetiu em contextos variados, com pessoas variadas, por razões variadas. O que une todas essas rejeições é a mesma recusa em reconhecer quem ele é.
Atos 16:16-24 Este episódio ilustra outro momento em que um ato miraculoso dos apóstolos gerou reação negativa da população local, resultando em sua expulsão.
"Quando os donos da jovem viram que a esperança de lucro havia desaparecido, prenderam Paulo e Silas e os arrastaram à praça, diante das autoridades." (Atos 16:19)
O paralelo é preciso: em ambos os episódios, a intervenção divina libertou alguém que estava sob domínio espiritual — e em ambos os casos, a reação dos que perderam economicamente foi expulsar os agentes dessa libertação. A lógica do reino de Deus e a lógica do interesse econômico entram em conflito, e o episódio dos gadarenos antecipa o que os apóstolos viveriam repetidamente.
10. Original Hebraico/Grego e Análise
Versículo em português: "Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus, e quando o viram, suplicaram-lhe que saísse do território deles." (Mateus 8:34)
Texto em grego: καὶ ἰδοὺ πᾶσα ἡ πόλις ἐξῆλθεν εἰς ὑπάντησιν τῷ Ἰησοῦ, καὶ ἰδόντες αὐτὸν παρεκάλεσαν ὅπως μεταβῇ ἀπὸ τῶν ὁρίων αὐτῶν.
Transliteração: kai idou pasa hē polis exēlthen eis hypantēsin tō Iēsou, kai idontes auton parekaleson hopōs metabē apo tōn horiōn autōn.
Análise palavra por palavra:
ἰδοὺ (idou) Partícula de ênfase — "eis que", "veja", "olha". Mateus usa essa palavra para chamar a atenção do leitor para algo inesperado ou surpreendente. Aqui, a surpresa não é um milagre — é a reação da cidade. O próprio Mateus, pela escolha dessa partícula, sinaliza que o que se segue é digno de atenção especial: algo que não deveria estar acontecendo está acontecendo.
πᾶσα ἡ πόλις (pasa hē polis) "Toda a cidade". O adjetivo pasa — "toda", "inteira" — combinado com o artigo definido enfatiza a totalidade da resposta. Não foi um grupo, não foram os proprietários dos porcos, não foram as autoridades. Foi a cidade inteira. Essa unanimidade é teologicamente relevante: não havia voz discordante, não havia quem defendesse a permanência de Jesus. A rejeição foi coletiva e completa.
ἐξῆλθεν (exēlthen) Verbo no aoristo indicativo ativo, terceira pessoa do singular — "saiu", do verbo exerchomai. O singular é usado porque o sujeito é coletivo ("a cidade"). A ação é pontual e definitiva — a cidade saiu de uma vez. O mesmo verbo foi usado para descrever a saída dos demônios dos homens (v. 32). Há uma ironia estrutural: os demônios saíram por ordem de Jesus; agora a cidade sai para ordenar que Jesus parta.
εἰς ὑπάντησιν (eis hypantēsin) Expressão que indica movimento em direção a alguém para um encontro formal — "ao encontro de". O substantivo hypantēsis era usado no grego para descrever a saída de uma cidade para receber oficialmente um visitante importante — um general vitorioso, um governador, um rei. A ironia é profunda: a cidade usa o protocolo de uma recepção honorífica para realizar uma expulsão. A forma é a de uma acolhida; o conteúdo é o de uma rejeição.
ἰδόντες (idontes) Particípio aoristo ativo — "tendo visto", "quando viram". O particípio indica que o ver precede e motiva o que se segue. A visão de Jesus é o gatilho da reação. Eles não pediram que fosse embora sem vê-lo — foi o encontro visual, o contato real com sua presença, que desencadeou a súplica. Ver Jesus não produziu fé — produziu medo e rejeição. O mesmo Jesus que causou adoração no centurião romano causa expulsão nos gadarenos.
παρεκάλεσαν (parekaleson) Verbo no aoristo indicativo ativo — "suplicaram", "rogaram", "pediram insistentemente", do verbo parakaleō. Este é um verbo de grande peso no Novo Testamento: é o mesmo radical de paraklētos, o "Consolador" — o Espírito Santo. Parakaleō indica apelo urgente, pedido fervente, súplica com intensidade emocional. Os habitantes não fizeram um pedido casual — suplicaram com insistência. Toda a energia emocional que poderia ter sido dirigida a Jesus em fé foi redirecionada para afastá-lo. A intensidade estava presente; a direção era oposta.
μεταβῇ (metabē) Verbo no subjuntivo aoristo ativo, de metabainō — "partir", "mover-se para outro lugar", "deixar". O subjuntivo indica o conteúdo do pedido — aquilo que suplicavam que acontecesse. Metabainō não é apenas "sair" (exerchomai), mas partir de forma definitiva, mover-se para outro território. O pedido era de uma saída permanente, não de uma retirada temporária.
ὁρίων (horiōn) Substantivo no genitivo plural — "territórios", "fronteiras", "limites". O pedido não era apenas que Jesus saísse da cidade, mas que cruzasse as fronteiras da região inteira. A palavra horia designa os limites geográficos de um território — como fronteiras entre regiões. Os habitantes queriam que Jesus ultrapassasse esses limites e não voltasse. É uma expulsão territorial, não apenas local.
11. Conclusão
Mateus 8:34 encerra o episódio dos gadarenos com um desfecho que nenhum leitor esperaria: a cidade inteira pede que Jesus vá embora, e Jesus vai. Não há milagre final para impressionar os que rejeitam, não há discurso de defesa, não há apelo às curas realizadas. Jesus respeita a decisão da comunidade e parte.
O versículo é um espelho de uma realidade que o Evangelho não esconde: é possível encontrar Jesus — vê-lo, ouvi-lo, testemunhar seu poder — e ainda assim pedir que ele se afaste. A rejeição dos gadarenos não foi motivada por má-fé declarada, mas por medo, por perda econômica, por preferência pela estabilidade do conhecido. São motivações profundamente humanas, e é exatamente por isso que este episódio continua sendo atual.
Do ponto de vista teológico, a saída voluntária de Jesus diante da rejeição revela algo essencial sobre o caráter divino: Deus não coage. Ele se oferece, se revela, age — mas não permanece onde não é desejado. Isso coloca sobre o ser humano a responsabilidade de sua própria resposta. A presença de Jesus na região dos gadarenos foi breve. O que ficou foi o testemunho dos dois homens libertados — e a memória de uma cidade que escolheu seus porcos.
Para o leitor contemporâneo, a pergunta que Mateus deixa em aberto não é sobre os gadarenos. É sobre cada um que lê: diante da presença de Jesus — com tudo o que ela exige, perturba e transforma — qual é a minha resposta?









